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NUNCA UMA FRASE FOI TÃO ATUAL

"EU DESCONFIO DE TODO O IDEALISTA QUE LUCRA COM SEU IDEAL" (Milor Fernandes).

domingo, 22 de fevereiro de 2026

BOM DIA

AMIGOS.

RECEBI DE UM VIZINHO AQUI DO CONDOMINIO ONDE MORO, 
GOSTEI E ESTOU REPASSANDO.

BOM DIA 

Existe algo no nosso condomínio que deveria ser patenteado.

Não é o campo de golfe.

Não é a piscina.

Não é o paisagismo.

Não é o sistema de câmeras.

É o “bom dia”.

Simples assim.

Aqui as pessoas se cumprimentam. E não é aquele “bomdia” espremido, automático, dito para cumprir tabela enquanto o polegar desliza na tela do celular como se o mundo estivesse pegando fogo em outro aplicativo. É “bom dia” com pausa. Com olho no olho. Com uma fração de segundo de presença verdadeira — aquele instante raro em que ninguém está em outro lugar.

Às vezes vem acompanhado:

— Dormiu bem?

— Já caminhou?

— Vai jogar hoje?

— Vai chover, hein?

O comentário sobre o tempo é uma obra-prima da civilização. Não exige intimidade, mas abre uma fresta de humanidade. É como dizer: “eu não sei sua história, mas reconheço que você está vivendo a mesma manhã que eu”. E isso, hoje em dia, já é quase uma declaração de vínculo.

Outro dia reparei numa coisa. O Seu Ernesto, que mora aqui na esquina, pertinho de casa, varre a calçada como se estivesse colocando o mundo em ordem — e talvez esteja. Ele não sabe o nome da metade das pessoas que passam. Mas cumprimenta todas. Com convicção. Todas, sem excessão. Como quem acredita que, enquanto houver gente dizendo “bom dia”, o planeta ainda não saiu completamente dos trilhos. E há algo de comovente nessa insistência silenciosa e atenciosa de manter o mundo funcional com uma vassoura e um cumprimento.

A Dona Célia, ajoelhada no jardim, levanta o rosto com aquela calma de quem já entendeu que pressa nenhuma melhora a vida. Sorri. Responde. Não parece gentileza social. Parece um compromisso convicto com a boa convivência — como quem rega flores e relações com o mesmo cuidado.

O adolescente que sai meio amarrotado às dez da manhã recebe um:

— Bom dia, campeão!

Ele faz cara de quem preferia não existir antes do meio-dia. Mas responde. Sempre responde. Porque até a rebeldia reconhece quando a cordialidade não é invasiva — é acolhedora. E talvez ele nem saiba, mas está aprendendo ali um idioma que vai usar a vida inteira.

Aqui até o labrador é cumprimentado. E não como acessório. Como cidadão. Já vi cachorro fujão atravessar a rua com mais reconhecimento social do que muito executivo em prédio comercial.

Já morei em lugares onde o elevador parecia uma negociação de paz em território hostil. Cada um olhando para baixo, ou estudando o número do andar como se fosse literatura russa.

Aqui não.

Aqui existe aceno de cabeça entre carros, mesmo sem enxergar quem está dentro. O aceno não é para a placa. É para a certeza de que alguém — alguém que importa — está ali.

Mas o que mais me toca é que esses “bom dia” não estavam no preço da compra da casa. Não vieram no folder. Não estão na escritura. Não aparecem na avaliação patrimonial. Nenhum corretor mencionou na hora da negociação:

“Além da infraestrutura completa, o senhor levará também uma comunidade que se olha.”

E, no entanto, nós sabemos que vale muito.

Vale mais do que o mármore importado. Vale mais do que o metro quadrado valorizado.

Vale quando chega um morador novo. Antes mesmo de aprender o nome das pessoas, ele aprende o tom das vozes. Aprende que será visto. Que não atravessará dias anônimo. E isso, para quem já morou em lugares onde ninguém se olha, é quase um alívio físico.

Vale quando surge um problema. Porque é difícil transformar em adversário alguém que lhe desejou bom dia ontem. O cumprimento cria um crédito emocional silencioso. Não elimina divergências. Mas muda o volume. Muda o modo. Humaniza o conflito antes que ele cresça.

E aí entra o Juvenal.

O Juvenal é um fenômeno. Caminha duas voltas completas no condomínio todos os dias, no mesmo horário. Um relógio ambulante. Só que, em vez de marcar as horas, ele marca presença. Distribui “bom dia” como quem distribui sementes de civilidade no chão do cotidiano.
Um dia fiz um teste. Fiquei de costas na frente de casa, fingindo organizar alguma coisa irrelevante. Pontualmente:
— Bom dia!
Sem hesitar. Sem precisar de confirmação visual. O “bom dia” dele não depende do rosto. Depende do princípio.
E talvez seja isso que mais me emociona: não é simpatia seletiva. É convicção de convivência. É um gesto que não calcula retorno.

Há também o aceno entre carros. A buzina leve que não diz “saia”, mas, ao contrário, “estou aqui, com cuidado”. Pequenos códigos que parecem antigos — quase herdados.

Porque há algo de saudade nisso tudo.

Saudade do tempo em que a gente sabia o nome do vizinho. Do tempo em que criança brincava na rua e todo adulto sentia, mesmo sem combinar, um pouco responsável por ela. Do tempo em que pedir açúcar emprestado não era constrangimento — era rotina. Do tempo em que o mundo cabia na calçada e a porta da casa ficava encostada, não trancada.

Talvez o que emocione no “bom dia” do condomínio não seja a palavra em si. É o que ela resgata. É a sensação de que ainda é possível viver sem o permanente estado de alerta. De que nem todo encontro precisa ser defensivo. De que ainda podemos circular sem nos sentirmos estranhos uns aos outros.

Quando alguém olha e diz “bom dia”, está dizendo mais do que parece:

“Eu reconheço você.”

“Você faz parte.”

“Eu espero que o seu dia seja bom — e isso me importa.”

O condomínio não é um conjunto de casas. É um conjunto de reconhecimentos diários.

Num mundo em que discutimos ferozmente com desconhecidos nas redes sociais por temas que jamais resolveremos, aqui dois moradores que não sabem o sobrenome um do outro trocam um cumprimento simples e sincero. E isso reorganiza o clima. Reorganiza o humor. Às vezes reorganiza até o dia.
Porque ser visto muda a postura.

Talvez o segredo não esteja nas normas, nem nos estatutos, nem no regimento interno. Talvez esteja naquela primeira voz humana que você ouve assim que sai de casa.

Esses “bom dia” não constam na matrícula do imóvel.
Mas sustentam algo muito mais valioso do que patrimônio.

Eles sustentam a rara sensação de que ainda vale a pena viver entre pessoas — sem filtros, sem intermediários, fora do mundo digital, longe de redes sociais que fingem aproximar, mas que, na verdade, são os instrumentos que mais nos afastam.

E isso, convenhamos, é nossa conquista  e não é pouca coisa.

ABRAÇO

Paulo Coimbra
Fevereiro/2026



VITORIA J07

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